Gravações rupestres com rostos humanos ao longo do Rio Negro, no Brasil, voltaram a aparecer depois que uma queda histórica do nível das águas expôs um sítio protegido de arte rupestre que não era visto havia anos.
O reaparecimento transformou uma crise ambiental num momento de revelação, ao mesmo tempo em que reacendeu um alerta urgente sobre vestígios frágeis dos primeiros habitantes da região.
Quando o rio baixou
Na orla de Manaus, no norte do Brasil, uma formação rochosa inclinada ficou novamente à mostra, com faces humanas gravadas surgindo inteiras acima da linha d’água.
A partir dessa superfície recém-exposta, técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registraram as gravuras e constataram que, apesar de ter voltado ao ar livre, o local segue bem preservado.
Várias figuras, distribuídas em fileiras pela pedra, só costumam aparecer em períodos de estiagem e haviam sido vistas pela última vez durante uma seca anterior; na maior parte do ano, permanecem submersas.
Como a redução do nível do rio pode atrair visitantes rapidamente - e, com isso, aumentar o risco de danos - autoridades passaram a acompanhar o acesso e reforçar a proteção antes que as águas subam outra vez.
O que revelam as gravuras de rostos
Muitos dos desenhos lembram rostos, com olhos e bocas simples alinhados em sequência sobre a rocha.
Arqueólogos classificam essas marcas como petróglifos - entalhes produzidos por percussão ou abrasão na pedra - que podem ficar escondidos sob a água por quase todo o ano.
Além das faces gravadas, sulcos compridos e cavidades rasas indicam uso repetido do local para afiar e polir ferramentas de pedra.
Por transmitirem uma presença humana, as figuras costumam despertar reação emocional em quem visita, mesmo sabendo que o rio volta a cobrir e descobrir a rocha sucessivas vezes.
Seca e descoberta
Medições feitas por monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB) registraram um novo patamar mínimo enquanto o Rio Negro baixava nas proximidades de Manaus.
Quando a água recua, rochas antes submersas passam ao ar livre e a luz do sol seca algas que normalmente borram linhas mais finas das gravuras.
Em outubro de 2023, o rio atingiu cerca de 12,8 metros de profundidade, o menor nível desde o início das medições, em 1902.
A mesma queda deixou embarcações encalhadas e interrompeu rotas de abastecimento, de modo que o surgimento das gravuras ocorreu junto a um impacto humano evidente.
Mais descobertas rio abaixo
Além das gravuras de rostos na área de Manaus, a estiagem também revelou outros três pontos no estado do Amazonas, cada um trazendo indícios diferentes.
Em Tabatinga, no oeste do Amazonas, perto das fronteiras com Colômbia e Peru, a descida das águas expôs as ruínas de um forte fluvial do século XVIII.
Em Anamã, a aproximadamente 160 quilômetros rio abaixo de Manaus, o recuo mostrou urnas funerárias; e a mesma baixa tornou visíveis novas gravações em Urucará, a cerca de 260 quilômetros de distância.
Esses locais ainda precisavam ser cadastrados e analisados, mas a exposição repentina os deixou sujeitos a saque.
Arqueologia e a lei
A Lei 3.924 estabelece que vestígios arqueológicos são patrimônio público, mesmo quando se encontram em propriedade privada.
Essa proteção proíbe comercializar artefatos, acender fogueiras ou alterar um sítio de forma a eliminar camadas de evidência.
Antes de qualquer escavação ou coleta, o IPHAN exige um plano aprovado, para que especialistas capacitados definam e controlem o que pode ser retirado de um sítio.
Na prática, as regras podem parecer rígidas na beira do rio, mas existem porque um único “souvenir” levado sem cuidado pode destruir para sempre o contexto arqueológico.
Impacto humano sobre a arte rupestre
Garrafas plásticas e outros resíduos frequentemente chegam trazidos pela correnteza, e visitantes também podem ampliar o acúmulo de lixo.
O calor de pequenas fogueiras pode rachar a pedra, e a fuligem escurece as gravações de um modo que a chuva não consegue reverter.
Até o atrito aparentemente leve pode desgastar arestas nítidas, já que a oleosidade da pele e grãos de areia funcionam como abrasivos sobre a superfície.
Depois que esse tipo de dano ocorre, detalhes se perdem - e nenhuma limpeza posterior ou arquivo fotográfico consegue recuperá-los de verdade.
Proteção das gravuras de rostos
Visitas organizadas permitiram ao IPHAN orientar o público sobre regras básicas e oferecer aos moradores uma forma mais segura de se aproximar do local.
Mutirões de limpeza e conversas breves, realizados em parceria com o Instituto Soka Amazônia, ajudaram a transformar a preservação em um esforço coletivo.
“Além de registrar e divulgar as informações, estamos planejando, com a equipe e parceiros, os próximos passos na preservação e cuidado desse patrimônio histórico e arqueológico”, disse Beatriz Evanovick, superintendente do IPHAN no Amazonas.
A proteção de longo prazo depende de uma gestão constante, porque o rio pode voltar a expor a rocha sempre que a seca extrema se repetir.
Mapeando o patrimônio de Manaus
Um artigo de 2011 descreveu quantos sítios arqueológicos existem dentro de Manaus e como a expansão urbana pode apagá-los rapidamente.
Em vez de escavar sem critério, os autores mapearam áreas já conhecidas e relacionaram esses pontos a terraços fluviais onde famílias indígenas viveram e enterraram parentes.
Em outro relatório, os pesquisadores caracterizaram o promontório rochoso como uma área alagada de forma sazonal, o que faz as gravações aparecerem apenas nos meses mais secos.
Esse registro anterior agora ajuda fiscais a confrontar fotos recentes com dados antigos e oferece ao Ministério Público uma linha do tempo caso surjam sinais de dano.
Planejamento para a próxima seca
Com o nível do rio ainda baixo, o IPHAN programou novas vistorias e começou a redigir, com outros órgãos, um protocolo de preservação.
Obras próximas à margem podem exigir salvamento arqueológico - uma recuperação emergencial antes que máquinas alterem o terreno - e as equipes precisam agir rapidamente.
Quando artefatos são retirados de uma área sob ameaça, cada peça é identificada e armazenada para permitir estudo posterior.
A gestão compartilhada pode parecer demorada, mas ajuda a evitar a correria que ocorre quando o rio baixa de surpresa e pega todos desprevenidos.
História sob o rio
As gravuras expostas e os novos pontos revelados reforçam quanto da história permanece sob os rios amazónicos, aguardando a linha d’água certa.
Novas secas provavelmente trarão outras descobertas, mas apenas fiscalização contínua, educação e pesquisa cuidadosa podem impedir que elas se convertam em perdas.
Informações a partir de um comunicado de imprensa da Reuters.
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