O câncer atinge milhões de pessoas no mundo e não é um problema exclusivo dos humanos: ele também aparece em animais, incluindo gatos. Um novo estudo de grande porte trouxe pistas genéticas relevantes sobre como a doença surge em felinos - uma descoberta que pode, no futuro, influenciar estratégias terapêuticas tanto na medicina veterinária quanto na humana.
O projeto reuniu investigadores de várias instituições e representa o primeiro levantamento genético em larga escala que analisa, em conjunto, muitos tipos diferentes de câncer em gatos.
Compreendendo o câncer em gatos
Só no Reino Unido, vivem em lares mais de 10 milhões de gatos. Nessa população, o câncer figura entre as principais causas de adoecimento e morte. Apesar disso, durante muito tempo, havia pouca clareza sobre os mecanismos genéticos por trás do desenvolvimento de tumores em felinos.
Para preencher essa lacuna, a equipa analisou amostras de tumores de quase 500 gatos domésticos provenientes de cinco países. Esses fragmentos de tecido já tinham sido recolhidos por veterinários para exames e avaliações clínicas.
A seguir, os investigadores sequenciaram o DNA dessas amostras e focaram a análise em cerca de 1.000 genes associados ao câncer em humanos.
O trabalho incluiu 13 tipos distintos de câncer felino. Ao confrontar as alterações genéticas observadas nos tumores de gatos com as descritas em cânceres humanos e caninos, os cientistas encontraram semelhanças inesperadamente marcantes.
Gatos e humanos compartilham genes do câncer
A análise mostrou que muitos genes que impulsionam o câncer em gatos se parecem muito com os equivalentes em humanos. Esses genes são chamados de genes condutores, porque alterações neles podem levar células normais a tornarem-se cancerosas.
Um exemplo central veio do carcinoma mamário, um câncer de mama agressivo em gatos. Nesse tumor, a equipa identificou sete genes condutores associados. O mais frequente foi o gene FBXW7: mais da metade dos tumores mamários felinos apresentava uma mutação nesse gene.
Em humanos, mutações em FBXW7 em casos de câncer de mama estão relacionadas a um prognóstico pior. O mesmo padrão também foi observado em gatos. Esse paralelismo forte reforça a ideia de que a doença pode seguir trajetórias biológicas comparáveis nas duas espécies.
Principais mutações genéticas identificadas
Outra alteração recorrente apareceu no gene PIK3CA. Os investigadores detectaram essa mutação em 47% dos tumores mamários de gatos.
No câncer de mama humano, mutações em PIK3CA já são tratadas com medicamentos específicos, conhecidos como inibidores de PI3K. Isso cria a possibilidade de investigar abordagens semelhantes para felinos.
Para além dos tumores mamários, o estudo também registou alterações genéticas partilhadas em cânceres do sangue, do osso, do pulmão, da pele, do sistema digestivo e do sistema nervoso central.
No conjunto, os resultados apontam que a biologia do câncer frequentemente atravessa as fronteiras entre espécies.
Testes de medicamentos trazem nova esperança
O estudo não se limitou a mapear genes: os investigadores também avaliaram, em laboratório, como determinados quimioterápicos atuavam sobre amostras de tumores.
Nos tumores mamários com mutação em FBXW7, alguns fármacos de quimioterapia pareceram ter melhor desempenho.
Como os testes foram feitos apenas em tecidos, e não em animais vivos, ainda são necessários mais estudos. Mesmo assim, o achado sugere caminhos promissores para ampliar opções de tratamento.
“Ter acesso a um conjunto tão grande de tecidos doados permitiu-nos avaliar respostas a medicamentos em diferentes tipos de tumor, de uma forma que não era possível nesta escala antes”, observou o Professor Sven Rottenberg, da Universidade de Berna.
Essa testagem em grande escala ajuda a equipa a procurar terapias que, no futuro, possam chegar às clínicas - tanto para animais de estimação quanto para pessoas.
Abordagem Uma Só Medicina
Gatos e humanos partilham casas, ar e ambientes. Por isso, a exposição a poluição, substâncias químicas e outros fatores de risco pode ser semelhante.
Ao investigar o câncer em animais de companhia, os cientistas podem aprender mais sobre como o ambiente contribui para o risco de câncer em pessoas.
“Apesar de os gatos domésticos serem animais de estimação comuns, havia muito pouco conhecimento sobre a genética do câncer nesses animais, até agora”, acrescentou o Professor Geoffrey Wood, do Ontario Veterinary College.
“Este estudo pode ajudar-nos a compreender mais sobre por que o câncer se desenvolve em gatos e humanos, como o mundo ao nosso redor influencia o risco de câncer e, possivelmente, encontrar novas formas de o prevenir e tratar.”
Esse modelo de investigação conjunta é conhecido como a abordagem Uma Só Medicina.
Aprendizado compartilhado melhora o tratamento
A proposta incentiva colaboração entre médicos e veterinários. Terapias eficazes em humanos podem ser avaliadas em gatos, enquanto o que se aprende ao tratar gatos de companhia pode orientar estudos clínicos em humanos.
“Ao comparar a genômica do câncer entre diferentes espécies, ganhamos uma compreensão maior do que causa o câncer”, comentou Bailey Francis, do Wellcome Sanger Institute.
“Uma das nossas principais descobertas foi que as alterações genéticas no câncer felino são semelhantes a algumas que são observadas em humanos e cães.”
“Isto pode ajudar especialistas da área veterinária, assim como os que estudam o câncer em humanos, mostrando que, quando o conhecimento e os dados circulam entre diferentes disciplinas, todos podemos beneficiar.”
Grande avanço na investigação do câncer em gatos
Durante anos, pouco se sabia sobre a genética por trás dos tumores em gatos. Este estudo altera esse cenário.
Os investigadores também criaram um recurso genômico de acesso livre, pensado para apoiar pesquisas futuras sobre câncer felino e orientar novos estudos na área.
Trata-se de um dos avanços mais significativos na investigação do câncer em gatos. Ao compreender melhor a doença em felinos, a ciência pode aproximar-se de tratamentos melhores tanto para animais de estimação quanto para pessoas.
“Agora podemos começar a dar os próximos passos em direção à oncologia felina de precisão, para alcançar as opções diagnósticas e terapêuticas que já estão disponíveis para cães com câncer e, em última instância, um dia, para humanos”, concluiu a Dra. Louise Van Der Weyden.
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