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Lagos tropicais da Bacia do Congo liberam carbono antigo e preocupam a estabilidade climática global

Homem medindo qualidade da água em rio usando equipamento científico em canoa cercada por vegetação densa.

Grandes reservatórios de água doce guardam pistas climáticas importantes - e parte desse registro começa a “vazar” para a atmosfera. Pesquisadores estão chamando atenção para lagos tropicais na Bacia do Congo que vêm liberando toneladas de carbono antigo, o que aumenta a preocupação com a nossa estabilidade climática global.

Como o carbono antigo está escapando desses lagos?

As análises indicam que os lagos Mai Ndombe e Tumba se comportam como fissuras em um cofre ambiental que, em tese, deveria manter gases poluentes presos. Nessas águas, há emissão de dióxido de carbono originado em turfeiras antigas - antes tratadas como depósitos totalmente estáveis e isolados do mundo moderno.

Para os especialistas que atuam na região africana, o achado foi inesperado por apontar uma rota de vazamento pouco considerada: matéria orgânica preservada por milênios consegue chegar ao ar por meio da água. Isso acende um alerta por causa do enorme volume de material armazenado nesse ecossistema.

  • Lago Mai Ndombe: tem cerca de 2.251 km² de extensão e libera todos os anos milhares de toneladas de carbono antigo.
  • Lago Tumba: ocupa aproximadamente 741 km² e apresenta profundidade média rasa, em torno de 4,0 m.
  • Águas escuras: o tom semelhante ao de chá-preto sugere alta presença de material vegetal arrastado das florestas ao redor.

Qual é o tamanho real desse reservatório de carbono?

Mesmo ocupando uma fração muito pequena da superfície terrestre, as turfeiras da Bacia do Congo têm um peso ambiental desproporcional. Elas reúnem por volta de um terço de todo o carbono guardado em solos de turfa de regiões tropicais globais.

Estimativas científicas apontam que esse sistema central armazena cerca de vinte e nove bilhões de toneladas métricas do material. Por isso, até mudanças discretas ou pequenos vazamentos já são suficientes para elevar a atenção dos pesquisadores, dado o potencial impacto sobre o aquecimento e o clima atual.

O que a datação por radiocarbono revelou sobre as águas?

Com testes avançados, os cientistas conseguiram determinar a idade dos componentes orgânicos dissolvidos na água dos dois lagos. Os resultados, considerados surpreendentes, mostram material com milhares de anos - um sinal de atividade microbiana capaz de liberar gases que antes ficavam retidos em camadas profundas do solo africano antigo.

Análise de radiocarbono Detalhes
Idade dos gases coletados Os testes indicaram que o carbono inorgânico dissolvido possui uma idade estimada entre 2.170 e 3.515 anos radiocarbono.
Origem estimada Aproximadamente 39% a 40% desse elemento provém diretamente das turfeiras adjacentes que cercam os corpos d’água na região.

As evidências também ajudam a dimensionar quanto gás escapa continuamente para a atmosfera. A seguir estão os principais pontos destacados pelos pesquisadores sobre estimativas anuais de perda de carbono e as dinâmicas de vazamento observadas no local.

  • O lago Mai Ndombe, isoladamente, pode liberar mais de 165 mil toneladas de carbono de turfa por ano.
  • O quadro sugere que existe uma via permanente pela qual esse estoque antigo consegue alcançar o ar.
  • Isso não aponta, necessariamente, para um colapso total do sistema, mas funciona como um aviso ecológico relevante.

Como as mudanças no nível da água afetam as emissões?

A altura da lâmina d’água influencia diretamente o quanto de gás consegue escapar para o ambiente. Em períodos de cheia, microrganismos que consomem metano tendem a atuar com mais eficiência, derrubando de forma expressiva a liberação desse poluente potente na atmosfera.

Já nas fases secas, essa proteção natural se altera de maneira decisiva e a decomposição do material orgânico pode acelerar. Abaixo estão os principais fatores de risco ecológico associados à redução persistente dos níveis fluviais e ao avanço das mudanças climáticas na região.

  • Na estação seca, a queda do nível da água reduz a barreira biológica natural contra o metano.
  • Com o solo de turfa mais exposto, o oxigênio penetra com maior profundidade, intensificando a ação de bactérias decompositoras.
  • A estabilidade do material se rompe com mais facilidade, gerando e liberando gases de efeito estufa adicionais em ritmo acelerado.

Quais são os riscos do desmatamento para esse ecossistema?

A pressão humana local é outra ameaça séria à manutenção do equilíbrio hídrico e à integridade do solo. Quando áreas de floresta são transformadas em agricultura, a evaporação regional cai bastante; isso reduz a formação de nuvens e deixa o território mais seco e vulnerável.

Esse tipo de perturbação mexe com a engrenagem climática do planeta, embora esses ambientes aquáticos tropicais ainda apareçam pouco nos modelos de projeção global. Neste momento, os cientistas tentam esclarecer se a perda observada representa um desequilíbrio irreversível ou apenas uma oscilação natural desse reservatório.

Referência: “Carbono de turfa com idade milenar liberado por grandes lagos húmicos na Bacia do Congo” | Nature Geoscience

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