Pular para o conteúdo

Bastões de marfim de mamute de 13.700 anos no Alasca central reforçam tradição ligada à cultura Clóvis

Pessoa com luvas manuseia objeto cilíndrico esculpido durante escavação arqueológica em área montanhosa.

Arqueólogos identificaram bastões de marfim de mamute com cerca de 13.700 anos no Alasca central, peças que se encaixam numa tradição de entalhe há muito associada, mais tarde, à cultura Clóvis na América do Norte.

A novidade coloca essa tecnologia a centenas de quilómetros ao norte do seu “centro” mais conhecido e estreita a janela temporal para entender como os primeiros americanos levaram e adaptaram o ofício ao longo do continente.

Evidências no Vale do Tanana

Às margens do Shaw Creek, no Vale do Tanana, no Alasca, uma superfície de ocupação preservada - conhecida como sítio Holzman - guardou um pequeno conjunto de oficina: uma bigorna de pedra, fragmentos de marfim de mamute e terra queimada.

Ao analisar esse material, o Dr. Brian T. Wygal, da Adelphi University, registou marcas de entalhe no marfim que correspondem à mesma tradição de modelagem observada depois em sítios Clóvis mais ao sul.

Logo abaixo dessa camada, um nível mais profundo, datado de aproximadamente 14.000 anos, preservou uma presa de mamute quase completa, indicando que as pessoas voltaram ao local em diferentes ocasiões e trabalharam o marfim ao longo de várias visitas.

Essa sequência sugere continuidade de uso no sítio, mas ainda não esclarece de que forma - e com que rapidez - a técnica se espalhou para além do Alasca.

Técnicas de entalhe em marfim

Ao partir uma presa fresca, ficavam expostas superfícies planas; em seguida, utilizava-se quartzo local para raspar e transformar essas faces em esboços estreitos de marfim.

Como o quartzo é duro e mantém uma aresta eficiente diante do marfim resistente de mamute, era possível, com pressão constante, abrir sulcos sem estilhaçar a peça.

As cicatrizes de corte nos bastões coincidiram com lascas de pedra encontradas nas proximidades, o que aponta que o trabalho ocorreu naquele mesmo trecho de terreno.

E, por o marfim resistir melhor à decomposição, essas marcas acabam preservando gestos técnicos que provavelmente teriam desaparecido se o mesmo tipo de ferramenta fosse feito em madeira.

Conectando o marfim à Clóvis

Anos depois, a Clóvis - cultura famosa por pontas de pedra caneladas - expandiu-se rapidamente por grande parte da América do Norte.

Muitos arqueólogos recorrem a essas pontas para datar sítios, já que o formato muito característico aparece apenas durante um intervalo relativamente curto.

A equipa de Wygal afirmou que, no sítio Holzman, o entalhe em marfim dependia dos mesmos movimentos básicos das mãos, mesmo na ausência de pontas caneladas.

Essa possível ligação desloca o debate para longe de “invenções únicas” e aproxima a explicação de um cenário em que competências foram transmitidas à medida que as pessoas se deslocavam.

Vida quotidiana no Holzman

Terra carbonizada e ossos queimados assinalaram áreas de preparo de comida, deixando restos alimentares no lugar por milénios.

Cinzas e solo endurecido pelo calor podem “fixar” componentes delicados, permitindo que até ossos finos de aves se conservem.

Perto dali, uma bigorna plana e instrumentos de corte mais pesados sugerem que alguém dividiu a presa em segmentos manejáveis ao lado do ponto de cozimento.

A concentração apertada de resíduos de alimentação e sobras de fabricação de ferramentas indica um acampamento breve, e não uma base de ocupação prolongada.

Datação das camadas

Carvão vegetal rico em carbono, proveniente das fogueiras, permitiu aos cientistas aplicar a datação por radiocarbono, um teste de idade baseado nas taxas de decaimento do carbono.

Datas obtidas separadamente a partir do marfim de mamute e do carvão acompanharam a ordem dos sedimentos, mostrando que os materiais mais antigos estavam nas camadas mais profundas.

Camadas intactas são decisivas, porque solo remexido pode fazer um objeto parecer mais antigo - ou mais recente - do que as pessoas que o produziram.

Ainda assim, mesmo com datações cuidadosas, o registo permanece incompleto, já que cheias, gelo, e a ação de animais podem apagar vestígios mais leves.

Tecnologia além do Alasca

Com a queda do nível do mar, a Beríngia ligou a Sibéria ao Alasca e abriu uma rota terrestre pela plataforma exposta.

Grupos em movimento podiam transportar ferramentas líticas - peças de pedra talhadas para corte - e, ao mesmo tempo, ensinar às crianças, durante a aprendizagem de fazer ferramentas, aqueles movimentos essenciais de entalhe.

“Marfim de mamute e material lítico parecem ter um papel de destaque na circulação de recursos por toda a Beríngia oriental e na eventual dispersão de pessoas mais ao sul, rumo às Montanhas Rochosas e às Planícies Altas do Norte da América do Norte”, concluiu Wygal.

Se esse padrão se confirmar, a oficina no Alasca passa a funcionar como elo entre continentes, e não apenas como uma curiosidade isolada.

Mamutes como recursos

O marfim de mamute oferecia aos fabricantes de ferramentas um material robusto, que continuava útil mesmo quando a escassez de árvores marcava o interior do Alasca.

Ao dividir o marfim em esboços, produziam-se segmentos fáceis de transportar; além disso, deixá-los secar pode tornar o entalhe mais suave e reduzir a fragilidade.

Acúmulos de presas perto de áreas de trabalho sugerem planeamento, já que as pessoas podiam regressar depois para terminar ferramentas ou seguir viagem.

Como o marfim de mamute raramente se preserva na maioria dos sítios, cada novo bastão encontrado pode melhorar a forma como os arqueólogos acompanham deslocamentos humanos.

Questões ainda sem resposta

Semelhança entre ferramentas, por si só, não identifica quem acampou ali e também não comprova uma linha familiar direta.

Grupos diferentes podem chegar a desenhos parecidos quando têm acesso aos mesmos materiais e enfrentam pressões semelhantes ligadas à caça.

Nenhum resto humano do sítio forneceu ADN antigo para análise.

Trabalhos futuros sobre registos climáticos e genética podem confirmar essa interpretação - ou encaminhá-la para outra direção.

Rastreando rotas de migração

No Vale do Tanana, acampamentos e oficinas dispersos formam uma cadeia de evidências de deslocamentos antigos pelo interior do Alasca.

Fogueiras pequenas, lascas de pedra e detritos de marfim podem assinalar uma visita no tempo quando permanecem em camadas limpas e separadas.

Coleções de museus agora permitem que especialistas comparem formatos de bastões e marcas de corte entre regiões, procurando sinais de um mesmo padrão de execução.

Cada coincidência - ou divergência - tende a tornar a rota mais nítida, indicando até onde a técnica chegou e onde deixou de aparecer.

Para onde a história vai

Os achados do sítio Holzman acrescentam evidências em escala humana de alimentação, trabalho e artesanato de um período em que as pessoas ainda se espalhavam pela América do Norte.

Respostas mais claras dependerão de novas escavações, melhor preservação e colaboração respeitosa com comunidades indígenas no Alasca.

Crédito da foto: B. Wygal.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário