Um novo estudo alerta que algumas das áreas mais ricas em aves no oeste dos Estados Unidos podem ser fortemente afetadas, no futuro, por incêndios florestais de alta severidade - aqueles que matam a maioria das árvores e podem alterar as florestas de forma permanente.
Segundo as estimativas, aproximadamente de um quarto a quase um terço dos principais pontos de diversidade de aves na região ficam em áreas que, mais adiante, devem queimar com alta severidade, o que coloca em risco habitats importantes e as espécies que dependem deles.
Para chegar a essas conclusões, os autores combinaram duas frentes robustas: dados detalhados de distribuição de aves e previsões avançadas sobre o comportamento do fogo.
A proposta não foi revisitar o que os incêndios já causaram, e sim identificar no mapa onde as mudanças nos padrões de fogo têm mais probabilidade de remodelar, na sequência, as comunidades de aves.
Uma nova forma de olhar para o futuro
A equipa - com cientistas do USDA Forest Service, do Cornell Lab of Ornithology e da University of New Mexico - recorreu aos dados do eBird para localizar áreas onde ocorre um grande número de espécies diferentes de aves.
A base do eBird é alimentada por milhões de registos enviados por observadores, e o projeto Status and Trends, da Cornell, processa essas observações para estimar onde cada espécie tem maior probabilidade de ser encontrada.
Depois disso, os investigadores sobrepuseram esse retrato da diversidade de aves às previsões de severidade do fogo elaboradas pelo USDA Forest Service. Com isso, conseguiram classificar os pontos de diversidade conforme a probabilidade de enfrentarem incêndios de baixa, moderada ou alta severidade no futuro.
“Advances in species distribution modeling using eBird data and fire forecasting give us an incredible lens into the future about how fire might impact biodiversity moving forward,” disse Andrew Stillman, ecólogo quantitativo aplicado no Cornell Lab of Ornithology.
“Thanks to these advances, we can move from a retroactive look at fire impacts to a forward-looking approach.”
Pontos de diversidade em zonas de incêndio de alto risco
Ao analisar os dados, os pesquisadores verificaram que uma parte das áreas hoje mais ricas em aves se encontra em locais onde se espera a ocorrência de incêndios intensos.
“Encontrámos que 24 to 30 percent desses pontos ocorrem em áreas que devem queimar com alta severidade no futuro”, afirmou Stillman. “Para mim, isso é preocupante, mas não é só má notícia.”
O lado mais promissor é que muitos desses pontos parecem situar-se em áreas nas quais a severidade projetada dos incêndios tende a ser menor.
O estudo estima que até 58% dos pontos de diversidade de aves estão em áreas que devem passar por incêndios de baixa severidade. Esses locais podem tornar-se refúgios importantes para espécies dependentes de florestas.
“Isso é uma boa notícia para iniciativas que buscam criar florestas mais resilientes”, acrescentou Stillman.
Incêndio de alta severidade e aves
Nem todo incêndio tem o mesmo potencial de destruição. Um incêndio de baixa severidade pode consumir o sub-bosque e reduzir material combustível, deixando muitas árvores de pé.
Já o incêndio de alta severidade tem outra dinâmica: pode eliminar uma grande parcela das árvores e, em certas paisagens, empurrar a floresta para um novo estado que não volta facilmente ao anterior.
O trabalho destaca uma discrepância inquietante: várias áreas com alta diversidade, previstas para enfrentar incêndios de alta severidade, são locais onde, historicamente, predominavam incêndios de baixa severidade.
Na prática, isso indica que as comunidades de aves desses lugares podem estar prestes a encarar condições para as quais não foram “moldadas” ao longo do tempo.
Os autores também chamam atenção para mudanças de vegetação no longo prazo. Se incêndios de alta severidade se tornarem comuns o suficiente, algumas florestas podem converter-se em formações de arbustos ou em matas de folhosas e permanecer assim, reduzindo o habitat de aves que dependem de florestas densas e maduras de coníferas.
O estudo cita o Oregon como um exemplo em que florestas dominadas por coníferas podem migrar para um cenário de arbustos ou árvores de madeira dura.
Além disso, destaca regiões conhecidas onde os padrões de fogo já estão a mudar: o entorno do Lake Tahoe, o Greater Yellowstone Ecosystem, as Colorado Rockies e partes da Sierra Nevada e das Cascades.
Quais aves são mais vulneráveis
O estudo sugere que o risco não se distribui de forma uniforme entre as espécies. Aves ligadas a vegetação densa parecem particularmente expostas, em parte porque os ambientes de que dependem não costumavam, historicamente, sofrer incêndios frequentes de alta severidade.
“As espécies com maior risco são as aves associadas a alta densidade de vegetação”, disse Stillman.
O texto menciona espécies como o trepador-marrom (Brown Creeper) e a carriça-do-pacífico (Pacific Wren), aves que tendem a prosperar em florestas densas e estruturalmente complexas. Se um incêndio de alta severidade eliminar essa estrutura, essas espécies podem perder as condições muito específicas de que precisam.
“Há um golpe duplo a acontecer aqui”, observou Stillman. “Há esse afastamento das normas históricas, e isso está a atingir com mais força as espécies com maior probabilidade de serem negativamente impactadas.”
Espécies de aves na zona de perigo
A equipa também avaliou que parte das populações de certas aves se encontra em áreas projetadas para enfrentar incêndios futuros de alta severidade.
Isso é relevante porque, mesmo quando uma espécie tem ampla distribuição, ela pode tornar-se vulnerável se uma fração grande da sua população reprodutiva ou não reprodutiva estiver concentrada em paisagens de alto risco.
A coruja-flamulada (Flammulated Owl) apareceu no topo da lista do estudo, com 59% da sua população reprodutiva em áreas previstas para incêndios futuros de alta severidade.
O tentilhão-rosado-de-cabeça-marrom (Brown-capped Rosy-finch) também foi destacado, com 36% da sua população não reprodutiva em zonas projetadas de alta severidade.
Nem toda ave perde quando o fogo aumenta
Um ponto importante do estudo é a nuance de que incêndios severos não são automaticamente “maus para todas as aves”. Algumas espécies podem beneficiar-se de maior atividade de fogo, sobretudo aquelas que usam ambientes pós-incêndio, madeira morta ou estruturas florestais mais abertas.
A pesquisa observa que espécies como a codorna-da-montanha (Mountain Quail), o pica-pau-de-cabeça-branca (White-headed Woodpecker) e o pica-pau-sugador-de-williamson (Williamson’s Sapsucker) podem beneficiar-se de uma maior atividade de fogo.
Assim, o objetivo não é eliminar o fogo - é compreender onde ele está a mudar de maneira a apagar habitats florestais essenciais e a empurrar ecossistemas para uma nova forma.
O que gestores de terras podem fazer
O valor prático do estudo está em oferecer aos gestores um mapa que indica onde intervenções podem fazer mais diferença antes de os incêndios acontecerem.
Os autores defendem que um enfoque voltado para o futuro permite um planeamento direcionado, em vez de agir apenas depois que megaincêndios já transformaram as paisagens.
“Além de identificar regiões críticas para a gestão futura, este trabalho oferece uma oportunidade significativa de identificar espécies altamente impactadas cuja resposta ao fogo é pouco compreendida”, disse Kari Norman, autora principal e cientista biológica do USDA Forest Service Research and Development.
O texto aponta um exemplo de medida: reduzir a carga de combustível em locais com previsão de alto risco de megaincêndios severos.
A ideia não é que o manejo de combustível impeça todos os grandes incêndios, mas que possa diminuir a probabilidade de as florestas arderem com severidade extrema justamente onde a diversidade biológica está mais em jogo.
“A capacidade de olhar para a frente permite planear com antecedência e compreender as áreas no mapa que precisam de gestão direcionada agora”, disse Stillman.
“Este exercício permite-nos identificar áreas prioritárias onde estratégias de mitigação do fogo podem ser mais frutíferas para proteger a biodiversidade no futuro.”
Em síntese, a pesquisa procura mudar o planeamento contra incêndios florestais de um modelo reativo para um modelo proativo. Em vez de esperar pela próxima temporada catastrófica e contabilizar as perdas depois, o estudo aponta as paisagens e as espécies de aves mais vulneráveis a incêndios de alta severidade - dando aos gestores a oportunidade de agir já.
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