Um novo estudo publicado na Frontiers in Environmental Archaeology aponta que princesas do Egito Antigo não foram enterradas com armas apenas por cerimónia: elas realmente sabiam utilizá-las.
A pesquisa ajuda a encerrar as dúvidas sobre a perícia dessas mulheres com armamentos como adagas, arcos e maças. A chave foi uma nova análise de restos mumificados há muito considerados perdidos.
Da euforia egiptomaníaca à redescoberta das múmias em Dahshur
No auge da egiptomania dos anos 1890, o arqueólogo francês Jacques de Morgan encontrou corpos com cerca de 4.000 anos no complexo piramidal de Dahshur.
Em 1895, foram realizados exames científicos em duas das figuras mais importantes do conjunto funerário: o rei Hor e a princesa Noub-Hotep.
Já em 1915, os corpos de Dahshur foram levados para o Museu Egípcio, em Tahrir. Lá, acabaram guardados numa caixa de madeira e ficaram esquecidos por mais de um século.
Em 2020, a arqueóloga Zeinab Hashesh, da Universidade de Beni-Suef (Egito), reencontrou os restos mortais: rei Hor e princesa Noub-Hotep, princesa Itaweret, princesa Khenmet, princesa Ita e outro esqueleto feminino cuja identidade continua desconhecida.
"Early curators at the Egyptian museum gave the whole box only one number and described it as 'human remains'. That's it," Hashesh told ScienceAlert.
As caveiras dessas mulheres, porém, continuam desaparecidas.
"In 1906, the crania (skulls) were separated from the bodies and sent to the Cairo School of Medicine for examination," Hashesh adds.
"They were eventually lost, which made a complete assessment of the individuals impossible for later researchers."
Agora, Hashesh e colegas voltaram a examinar os corpos, combinando a observação de características ósseas com radiografias, para reconstruir melhor como essas pessoas viveram.
"Finding and analyzing these skeletons after they had spent 130 years in a box was a profoundly moving experience. As scientists, we felt a sense of responsibility to finally give a 'voice' to these individuals who were central to the Middle Kingdom royal court," Hashesh said.
"There was a mix of scientific excitement and a sense of historical justice in proving that these women were more than just the silent, decorative figures they had been assumed to be."
Princesas egípcias antigas, armas e indícios físicos de uso real
A reavaliação sugere que essas mulheres estavam longe de ser figuras frágeis.
"These were not just symbolic gifts but tools they actively used." - Zeinab Hashesh
Elas foram sepultadas com um arsenal expressivo de armas tradicionalmente associado a homens - um detalhe que já tinha deixado egiptólogos franceses intrigados em 1894. Mesmo assim, durante muito tempo arqueólogos continuaram a tratar esses objetos como algo "puramente simbólico" ou como ofertas "votivas" para o além, segundo Hashesh.
O novo trabalho afirma haver sinais suficientes de que as princesas sabiam manusear esse equipamento. As pistas aparecem tanto nas marcas de inserção muscular dos ossos quanto em evidências de lesões sofridas em vida.
Os ossos das princesas mostram adaptações compatíveis com uso intenso de musculatura, num padrão que corresponde diretamente às armas encontradas nos seus túmulos.
Um exemplo citado é o de Noub-Hotep: ela e o rei apresentam inserções musculares robustas típicas de arqueiros experientes.
"We found pronounced development in the upper limbs of these individuals, which correlates to repetitive, high-intensity actions like pulling a bowstring or stabilizing a weapon, proving these activities were habitual throughout their lives," Hashesh says.
"This directly explains the presence of bows, arrows, and maces in the women's tombs; these were not just symbolic gifts but tools they actively used."
As outras princesas exibem sinais semelhantes, compatíveis com uma vida de prática armada, incluindo ações ligadas à arqueria e à caça.
"Princess Ita was a young woman aged between 28 and 34 with strong upper-body muscle attachments, suggesting she habitually used weapons like maces or daggers," says Hashesh.
"Princess Khenmet was a woman in her late 30s or 40s who showed signs of thinning bones, but had very robust ligament attachments.
"Princess Itaweret was a young woman aged between 20 and 34 who survived broken ribs and foot fractures; her skeleton shows she was a skilled archer."
A leitura geral é que aquela família real não levava uma rotina sedentária: a actividade física se manteve ao longo da vida.
Treino, título mesu-nisut e o papel no além-vida
Hashesh relaciona esse treino a crenças egípcias sobre a vida após a morte - a ideia de que, com preparação adequada, o corpo espiritual poderia continuar a existir depois do falecimento.
"These women held the title mesu-nisut ('King's Children'), and their presence was integral to the ritual regeneration of the divine king," Hashesh told ScienceAlert.
"Far from leading sedentary lives of luxury, they were well-conditioned athletes and skilled practitioners of archery and martial arts hunting."
"In the elite sphere of Dahshur, these princesses were viewed as active ritual agents. They were not imitating men; rather, their royal blood and their role in the 'machine for surviving death' required them to be disciplined, powerful actors capable of wielding skilled force," she said.
O caso ilustra quanto ainda é possível aprender com o que sobrevive do passado - e como algumas das descobertas mais impactantes podem estar literalmente à espera, esquecidas num depósito, até serem revisadas com outros olhos.
A pesquisa foi publicada na Frontiers in Environmental Archaeology.
Este artigo passou por verificação de factos por Rachel Garner e edição de Michael Irving. Apesar de valorizarmos o nosso processo, somos humanos. Se notar algum erro, por favor, avise-nos.
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