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Cidadania Impura: Nick Cave no Nos Alive

Cantor vestido de preto interage com público animado em show ao ar livre durante o dia.

A rubrica "Cidadania Impura"

"Cidadania Impura" é uma coluna assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe.

Nick Cave e a espiritualização do rock

Com o passar dos anos, a forma como Nick Cave elabora o próprio luto foi transformando seus shows em algo cada vez mais sacralizado. Já não se trata apenas de um acontecimento em que a música comanda a celebração; é um lugar em que a música nos obriga a reavaliar a vida inteira - para festejar, agradecer, curar.

Há muito tempo, a potência de Nick Cave deixou de caber só no som: nela há consciência e compromisso, uma superpresença de introspecção e daquela fantasia de inventar personagens - que, no fundo, equivale a escutar o humano naquilo que tem de universal. Hoje, estar diante desse homem de quase setenta anos é encarar uma testemunha poderosa do que significa ser gente, pensar, sentir e precisar continuar.

Essa dimensão espiritual dos concertos de Nick Cave não quer dizer que virem missas, nem que tentem imitar o exercício religioso. É, antes, o rock chegando a uma idade em que consegue se apresentar como solução, e não apenas como problema. Seria como ver um partido de protesto, enfim, assumir a responsabilidade - e a maturidade - de conduzir a coisa pública. A estrela do rock passa a somar à força disruptiva a constatação de que muita coisa nos escapa, e que aceitar isso só nos torna mais humanos.

No Nos Alive: "Your funeral my trial", luto e liderança

Por toda a minha vida, a canção "Your funeral my trial" foi a minha favorita de Nick Cave e, agora, já não consigo ouvi-la sem a impressão - severamente sarcástica - de que ela se intromete no destino trágico de seus filhos. Todos nós somos julgados pela morte das crianças, e nenhum pai se sente livre diante de algo assim. Existe uma prisão para pais devastados. E existe um mistério que nunca se resolverá.

No Nos Alive, o show de Nick Cave foi um longo exercício de choro. Não porque fosse necessário, literalmente, enxugar lágrimas, mas porque é impossível ficar diante da soma intensa de uma vida sem se comover. Como contemplar um Goya ou ler um Proust, testemunhar um concerto desses é cair para dentro de si com a garantia de que não haverá um retorno inteiro. No meio disso, em julgamento, cada um revisita as próprias prisões e a própria liberdade - tão difícil. Como se diz de povos das matas, este homem é uma liderança: uma figura erguida sobre o coletivo para representar o esplendor da nossa condição vulnerável e, também, da nossa resistência.

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