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Bienal Internacional de Arte de Cerveira inaugura "Territórios sem fronteira" para encarar os problemas do mundo

Mulher fala para grupo sentado em círculo diante de mural colorido com mapa-múndi e palavra Immigrant.

Bienal Internacional de Arte de Cerveira e o lema "Territórios sem fronteira"

A nova Bienal Internacional de Arte de Cerveira abriu no sábado com uma escolha política clara: trazer os problemas para o centro da conversa. Em vez de apresentar obras “pela arte”, o evento quer funcionar como um espelho do qual não dá para desviar - do nosso mundo e do mundo dos outros.

Criada em 1978, esta é a 24.ª edição da Bienal. Sob o lema "Territórios sem fronteira", a proposta é lançar "uma reflexão alargada sobre a fronteira como construção geográfica, política, social, mental e simbólica". Por isso, o percurso da mostra convoca temas como migração, exílio, pós-colonialismo, desenraizamento e identidade.

"Forever immigrant" e a exposição "De qué casa eres?"

Logo na entrada, um mural feito diretamente na parede com carimbo repete, como sentença, a frase: "Forever immigrant". Assinada pelo artista plástico Marco Godinho, a obra acende o alerta e tenta levar o público a pensar sobre a condição do imigrante que "não pertence a nenhum território".

O trabalho integra a exposição "De qué casa eres?" - título inspirado em uma obra homônima da artista Ana Pérez-Quiroga. A mostra, de forte impacto, ocupa o Fórum Cultural de Cerveira, a casa-sede das bienais, e tem curadoria de Mafalda Santos, diretora artística do evento, e Manuel Santos Maia.

O aviso, porém, é coletivo. "Para este projeto expositivo, convidamos artistas portugueses radicados no estrangeiro, e também estrangeiros que escolheram Portugal para viver e trabalhar. Desta forma, há uma reflexão sobre o que é que essa condição provoca no nosso sentimento de pertença, na nossa identidade", afirma Mafalda Santos. Ela reforça: "Quando nos deslocamos, passamos a ser de outro lugar, mas quando voltamos também sentimos que já não pertencemos ao lugar de onde viemos".

Ainda assim, a Bienal não pretende apenas tensionar ou provocar: quer também acolher e integrar. Por isso, "as obras dos 39 criadores convidados coabitam o mesmo espaço", diz Mafalda Santos.

Arte que contamina

A decisão curatorial foi desenhada para incentivar encontros entre trabalhos. "Quando concebemos a exposição, também quisemos que não existissem divisórias. Temos expositores mais baixos para haver mais diálogo e contaminação entre peças de diferentes artistas", explica.

Dentro do mesmo eixo temático, estão reunidas obras de 36 artistas de 14 países, selecionados por concurso internacional. Segundo Mafalda Santos, houve "um número recorde de candidaturas: 900 de 56 países. Foi impressionante, até de Madagáscar houve uma candidatura".

Portugal, Espanha e Brasil aparecem com maior presença, mas a lista se estende a criações vindas também de Moçambique, Equador, Taiwan, São Tomé e Príncipe, França, China, Venezuela, EUA e Peru.

E, "para aprofundar a reflexão" sobre os territórios sem fronteiras, a diretora artística destaca a presença de trabalhos de "15 artistas históricos, já desaparecidos, que viveram também a condição de migração, de deslocamento, portugueses como a Paula Rego, Vieira da Silva, Sonia Delaunay".

Pestana lunar

A Bienal 2026 atravessa linguagens e formatos: instalações, vídeo, pintura, escultura, som, performance e intervenção no espaço público. Nesse recorte amplo, há ainda um tributo a Silvestre Pestana, com a exposição "Luso lunar".

O artista é descrito como "incontornável, é pioneiro da arte contemporânea portuguesa e detém um estatuto singular: esteve em todas as bienais desde 1978".

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