Vitórias em eleições presidenciais de candidatos respaldados pelo chefe de Estado norte-americano estão redesenhando o mapa político da região. A votação brasileira será o próximo teste dessa influência.
Desde o retorno de Donald Trump, diversos países da América Latina passaram por eleições presidenciais - e, nelas, candidatos de direita ou de extrema-direita foram maioria. Com a disputa pelo Palácio do Planalto se aproximando, o olhar da Casa Branca para as eleições brasileiras tende a virar mais um capítulo da tentativa dos EUA de ampliar o controle sobre a América Latina e reduzir o peso da China na região.
No Equador, o magnata das exportações de banana e político de linha-dura Daniel Noboa garantiu a reeleição em fevereiro de 2025. Em outubro, na Bolívia, o senador Rodrigo Paz avançou em meio a uma esquerda fragmentada em torno de Evo Morales.
No mês seguinte, o conservador Nasry Asfura assumiu a Presidência de Honduras no lugar dos progressistas, em uma eleição marcada por uma influência nada discreta de Donald Trump - que ameaçou suspender apoios ao país centro-americano e acusou o processo eleitoral de fraude. Em dezembro, o Chile escolheu o sucessor de Gabriel Boric (centro-esquerda) e o vencedor, com 58% dos votos, foi José Antonio Kast, conhecido por apoiar o regime do ditador Augusto Pinochet (1973-1990).
Já em 2026, Costa Rica (com Laura Fernández), Peru (Keiko Fujimori) e Colômbia (Abelardo de la Espriella) também optaram por nomes conservadores. Nos dois últimos casos, as disputas foram extremamente apertadas, com diferenças inferiores a um ponto percentual.
Cansaço da política
"É preciso cautela ao atribuir causalidade direta a essa influência de Trump nas eleições latino-americanas, uma vez que o sucesso da Direita e da Direita radical reflete também um cansaço com a política tradicional e insatisfações que são instrumentalizadas por esses partidos", diz ao JN Ana Paula Costa, investigadora na Universidade Nova de Lisboa.
A pesquisadora, que também preside a Casa do Brasil de Lisboa, ressalta ainda que "o apoio de Trump não é garantia de sucesso eleitoral, pois pode ser percebido como ingerência na política interna". Para a especialista em América Latina, o "efeito Trump" "é condicionado a fatores nacionais, como a legitimidade percebida da intervenção, a polarização preexistente e a força do antiamericanismo".
No Brasil, que vai às urnas em outubro, o líder da Casa Branca iniciou uma guerra comercial, em 2025, tendo como justificativa específica o julgamento que então ocorria contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Depois de uma trégua entre Washington e Brasília, os EUA anunciaram em 2026 novas tarifas e investigações contra o sistema de pagamento Pix (equivalente ao MBWay) e classificaram as facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como organizações terroristas. Trump se reuniu com o homólogo brasileiro, Lula da Silva, e também com o candidato adversário, Flávio Bolsonaro.
Brasil é "prioridade"
"Há sinais de que Washington já está a posicionar as eleições de outubro de 2026 como prioridade estratégica", diz a investigadora, ao apontar o interesse de Trump em promover "uma mudança política regional" para afastar a influência da China e dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em um contexto de "competição por recursos críticos e energia".
"Mas o que os estudos eleitorais apontam é que o comportamento do eleitor brasileiro continua a ser determinado sobretudo por fatores internos, como economia, segurança pública e avaliação do Governo em exercício, e que o cenário regional pode reforçar discursos da Direita local sem ser decisivo para o resultado das presidenciais", acrescenta.
Além de resultados eleitorais favoráveis, o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela e a pressão sobre Cuba alimentam o debate sobre se os EUA estariam entrando em uma nova fase da Doutrina Monroe - conhecida pelo lema "América para os americanos". "O estilo pessoal e a disposição de Trump para a interferência pública e direta em processos eleitorais na América Latina são atípicos mesmo para a política externa americana, e não há garantia de que um sucessor replique esse padrão específico de envolvimento explícito por questões ideológicas", conclui Ana Costa.
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Combate ao tráfico
A militarização do combate ao narcotráfico - modelo defendido e adotado por Trump - e o encarceramento em massa, popularizado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, passaram a ser o padrão seguido por governos da região.
Terrorismo
A classificação de facções como grupos terroristas, feita de forma unilateral por Washington, preocupa Brasília, que afirma que essas entidades buscam ganhos econômicos, e não objetivos ideológicos ou revolucionários. Segundo a diplomacia brasileira, o Brasil vê risco de uso de força militar por parte dos EUA.
Doze países à Direita
Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana têm ou terão governos de centro-direita ou de direita.
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